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Plantão Sem Pediatra: O Risco Sistêmico e a Linha Tênue da Responsabilidade Médica

25/10/2025

A escassez de pediatras em emergências e a sobrecarga do clínico geral. Entenda como a perícia médica avalia a responsabilidade em casos de atendimento pediátrico por médicos não especialistas.

O Dilema da Dor e a Necessidade de Investigação

É impossível não se comover com a dor de uma família que perde uma criança em um cenário que, talvez, pudesse ser evitado. Uma ferida que não cicatriza.

Casos como o que chocou Araxá nos lembram da fragilidade da vida e da importância do atendimento especializado. Mas, como perita, preciso lembrar: o caso ainda está sob apuração. Não é hora de culpar individualmente, é hora de investigar com responsabilidade.

Precisamos entender se houve falha individual, falha do sistema, ou uma fatalidade. E principalmente: o que pode ser feito para que isso não se repita.

A raiz do problema é sistêmica: a falta de pediatras na escala de plantão. Muitos clínicos gerais e emergencistas se veem obrigados a atuar em uma área de alta complexidade e risco. Dra. Caroline Daitx falou sobre este tema, inclusive, no Instagram. Clique aqui para dar sua opinião sobre este assunto.

A Crise do Plantão Pediátrico: Custo vs. Segurança

A falta de especialistas em hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) por todo o Brasil não é um mito. A realidade é multifatorial:

  • Remuneração Inadequada: Hospitais remuneram o plantão do especialista igual ao do médico sem especialidade.
  • Decisão Administrativa: Em muitos casos, há uma decisão de gestão de não contratar um especialista adicional para redução de custos.
  • Sobrecarga: Baixa remuneração e sobrecarga de trabalho afastam o profissional.

O resultado dessa equação financeira é a sobrecarga do clínico geral, que assume o risco de atuar em Pediatria por ausência do especialista.

A Perícia Médica e a Diferença entre “Poder” e “Dever”

A grande questão que a Justiça e a Perícia Médica buscam responder é: o médico não especialista pode atender uma criança?

A resposta, sob a ótica dos Conselhos de Medicina, é um “sim” condicional.

“Excepcionalmente o atendimento pediátrico pode ser efetuado por médico não especializado em Pediatria, como pode ocorrer em casos de urgência/emergência, quando o profissional deve prestar o primeiro atendimento e os procedimentos necessários para a manutenção da vida do paciente, até a chegada do especialista ou a transferência para um serviço adequado.” 1

Este é o ponto central: o médico tem o dever ético e legal de prestar o primeiro socorro em uma situação de urgência ou emergência, independentemente de sua especialidade. O que a perícia irá analisar, no entanto, é a qualidade desse atendimento e se o profissional agiu com a diligência esperada.

A Tríade da Culpa na Análise Pericial

Em um processo judicial que envolva um desfecho desfavorável no atendimento pediátrico por um não especialista, a perícia não se limita a questionar a falta do pediatra. Ela investiga a conduta do médico que estava presente, baseando-se na tríade da culpa:

Conceito Definição na Perícia Médica Foco da Investigação
Imperícia Falta de conhecimento técnico ou prático necessário para a execução de um ato. O médico não especialista aplicou um protocolo pediátrico básico e correto para a urgência? Ele falhou em reconhecer um sinal de gravidade esperado?
Imprudência Ação precipitada, sem a cautela necessária. O médico assumiu um risco desnecessário (ex: prescreveu um medicamento com dosagem inadequada para a idade) ou demorou a solicitar o suporte necessário?
Negligência Omissão, inação ou descuido. O médico deixou de solicitar exames básicos, não monitorou adequadamente a criança ou falhou em transferir o paciente para um centro com especialista disponível?

O nexo de causalidade será estabelecido se a perícia demonstrar que o dano sofrido pela criança foi resultado direto de uma falha na conduta do médico, e não de uma fatalidade ou da evolução natural da doença.

O Risco do “Erro Sistêmico” e a Responsabilidade da Instituição

É crucial entender que a falta de um especialista é um erro de gestão e de sistema, e não uma falha do médico que está na linha de frente.

Quando um hospital ou UPA opta por não manter um pediatra de plantão, ele assume o risco de que o atendimento prestado por um não especialista possa ser questionável em termos de profundidade e detalhe.

A jurisprudência tem se consolidado no sentido de que a responsabilidade primária pela organização do serviço é da instituição de saúde2. Se a falha do médico de plantão for decorrente da falta de recursos, protocolos ou do próprio especialista que deveria estar lá, a instituição pode ser responsabilizada por falha na prestação do serviço.

O Que o Médico Não Especialista Deve Fazer para Ter sua prática ética protegida

Para o profissional que se encontra nessa situação de sobrecarga, a blindagem legal e ética passa por:

  1. Reconhecimento de Limites: Se a situação ultrapassar a capacidade de manejo de um clínico geral, a prioridade máxima é a estabilização e a transferência imediata para um centro com suporte pediátrico.
  2. Documentação Rigorosa: O prontuário deve ser impecável. Registre cada passo, cada conduta, a justificativa para a ausência do especialista e, principalmente, as tentativas de contato com o suporte ou de transferência.
  3. Protocolos Básicos: Siga rigorosamente os protocolos de atendimento de urgência pediátrica (como o PALS – Pediatric Advanced Life Support) até a chegada do especialista.

Conclusão: A Perícia como Investigadora da Verdade

A dor de uma família que perde um filho é imensurável. O papel da perícia médica, nesses casos, é afastar a emoção e investigar a verdade técnica:

  • Houve falha individual (imperícia, imprudência, negligência) do médico que atendeu?
  • Houve falha sistêmica (ausência de especialista, falta de recursos) da instituição?
  • Ou foi uma fatalidade, uma complicação inevitável da doença?

A resposta a essas perguntas define a fronteira entre a tragédia e o ilícito. E é por isso que, em um cenário de escassez, a organização do serviço e a diligência do profissional são os pilares que sustentam a segurança do paciente e a defesa técnica do médico.


Equipe de Comunicação – Dra. Caroline Daitx

Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica

CRM/SP 194.404 | RQE 94.143


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Referências
[1] Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR). PARECER N.º 2890/2023. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/pareceres/PR/2023/2890_2023.pdf
[2] Migalhas. Responsabilidade civil em especialidades médicas. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/coluna/migalhas-de-responsabilidade-civil/378075/responsabilidade-civil-em-especialidades-medicas
[3] G1. Médicos alertaram hospital de falta de pediatras antes de mortes serem investigadas. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2025/05/29/medicos-alertaram-hospital-pela-falta-de-pediatras-semanas-antes-de-mortes-serem-investigadas-no-hlob-em-itapetininga.ghtml
[4] Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM Nº 2077 DE 24/07/2014. Disponível em: https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=274741
[5] JM Online. Morte de criança em Araxá é investigada após denúncia de possível erro médico. Disponível em: https://jmonline.com.br/geral/morte-de-crianca-em-araxa-e-investigada-apos-denuncia-de-possivel-erro-medico-1.557386
[6] Instagram. Post da Dra. Caroline Daitx sobre o caso. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DQPw-BAj9vl/

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