O caso da gestante que perdeu o bebê em Nilópolis expõe um dilema: segurança do médico vs. urgência. Entenda por que a responsabilidade vai além da médica e como a perícia apura os fatos.
“Nilópolis apura denúncia de negligência em UPA após gestante perder bebê.” A tragédia que aconteceu na madrugada de domingo (14) na UPA de Cabuís expõe um dos dilemas mais complexos da medicina de emergência: o que fazer quando segurança e urgência médica se confrontam?
O barbeiro Jony Bravo do Corte levou a esposa grávida à unidade às 2h30, relatando dores intensas e sangramento. Segundo sua versão, uma médica teria fechado a porta do consultório, negando atendimento. A gestante só foi encaminhada para outra unidade após pressão de moradores, mas perdeu o bebê. A profissional foi afastada temporariamente para apuração dos fatos.
Mas existe outra versão dessa história que precisa ser investigada. E é aqui que a perícia médica se torna fundamental para separar fatos de interpretações e encontrar a verdade técnica.
O Dilema Real: Quando Dois Princípios Colidem
Como destacou a Dra. Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, ao analisar o caso: “Se o médico não tem segurança para atuar, ele não vai atuar. Isso não é opinião, é protocolo”.
A segurança do profissional de saúde está prevista em protocolos internacionais. Inclusive em atendimentos pré-hospitalares, quando há risco de violência, a orientação é clara: o profissional não deve intervir até que a segurança esteja garantida.
Mas a especialista também foi categórica: diante de uma gestante em sofrimento intenso, a paciente não poderia ter ficado sem assistência. O dilema não é simples, e a solução não pode ser simplista.
A Responsabilidade Vai Além da Conduta Individual
“Quando segurança e urgência entram em conflito, a equipe médica deve acionar recursos externos — como apoio policial ou ambulância, isto é, se não houver outro profissional disponível para assumir o atendimento”, explicou Daitx.
Esta frase revela a complexidade real do caso. A responsabilidade não recai apenas sobre a médica que estava de plantão:
Responsabilidade da Instituição
Protocolos Claros: A UPA tinha procedimentos definidos para situações de conflito entre segurança e urgência?
Estrutura de Suporte: Existiam canais eficientes para acionar segurança ou transferir a paciente rapidamente?
Equipe Adequada: Havia outros profissionais disponíveis que pudessem assumir o atendimento caso a médica estivesse impedida?
Treinamento: A equipe sabia como proceder em situações de alta tensão emocional?
A Análise Técnica é Fundamental
Como ressaltou a especialista: “A instituição também tem dever de estruturar protocolos, garantir segurança e dar suporte à equipe”.
O afastamento da médica, embora possa parecer uma resposta rápida à pressão pública, não resolve o problema estrutural. É preciso investigar:
- Qual era exatamente o quadro clínico da paciente?
- Havia real impedimento para o atendimento?
- Os protocolos institucionais foram seguidos?
- Que recursos estavam disponíveis no momento?
O Papel Decisivo da Perícia Médica
“O que não pode é a paciente ficar sem assistência. E aqui é importante dizer: não é apenas responsabilidade da médica. A instituição também tem dever de estruturar protocolos, garantir segurança e dar suporte à equipe”, afirma Daitx.
Somente uma perícia médica independente pode esclarecer o que realmente aconteceu:
Análise do Atendimento: Verificar se houve ou não assistência médica prestada e qual foi sua adequação.
Avaliação dos Protocolos: Analisar se a conduta seguiu os procedimentos da unidade e as diretrizes técnicas.
Contexto da Situação: Entender as circunstâncias específicas do momento e os recursos disponíveis.
Identificação de Falhas Sistêmicas: Determinar se o problema foi pontual ou há deficiências estruturais.
Afastamento: Solução ou Medida Paliativa?
A Dra. Caroline Daitx foi enfática sobre este ponto: “A médica alerta que o afastamento da profissional pode parecer uma resposta rápida, mas não resolve o problema estrutural”.
O afastamento temporário é uma medida administrativa compreensível, mas:
- Não é uma condenação da profissional
- Não resolve as falhas sistêmicas que podem ter contribuído para a tragédia
- Não previne que casos similares se repitam
A Lição Sistêmica: Aprender Para Prevenir
“Casos assim não podem terminar apenas em manchete ou punição. Precisam virar aprendizado, com revisão dos fluxos de atendimento e melhoria da segurança para evitar novas tragédias”, concluiu a especialista.
Esta é a verdadeira lição do caso de Nilópolis. Não basta encontrar um culpado — é preciso:
Revisar Protocolos: Criar fluxos claros para situações de conflito entre segurança e urgência.
Melhorar a Estrutura: Garantir recursos adequados para que a equipe possa atender com segurança.
Capacitar Equipes: Treinar profissionais para lidar com situações de alta tensão.
Investir em Prevenção: Criar sistemas que evitem que dilemas como esse se repitam.
A segurança do profissional e a urgência do atendimento não devem ser forças opostas. Com protocolos adequados, estrutura apropriada e suporte institucional, ambos os princípios podem e devem ser preservados.
Caroline Daitx e Equipe de Comunicação
Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica
CRM/SP: 194.404 | RQE: 94.143
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