A Inteligência Artificial tem avançado rapidamente em diversas áreas da medicina, e a perícia médica não ficou de fora dessa revolução tecnológica. Mas será que estamos diante de uma ferramenta que vai nos auxiliar ou de uma tecnologia que pode substituir o trabalho do perito?
Vamos entender melhor essa questão.
A IA já está entre nós
Se você é médico perito, provavelmente já se deparou com aquela caligrafia impossível de decifrar em um prontuário antigo. Pois é exatamente aí que a Inteligência Artificial já começa a fazer diferença. Ferramentas de reconhecimento de texto conseguem interpretar caligrafias complexas que, muitas vezes, nem nós conseguimos ler com clareza.
Isso não é ficção científica, é realidade. A IA já está sendo utilizada em algumas etapas do trabalho pericial, especialmente na análise e interpretação de prontuários e documentos médicos. E o resultado? Mais agilidade, menos erros de transcrição e maior precisão na leitura de laudos extensos.
Mas existe um limite muito claro
Aqui está o ponto fundamental que todo médico perito precisa compreender: a perícia médica é um ato essencialmente humano. O Código de Ética Médica é cristalino ao estabelecer que a responsabilidade pelo laudo é pessoal e indelegável. Em outras palavras, não podemos terceirizar nosso julgamento para uma máquina.
A perícia exige algo que nenhum algoritmo consegue reproduzir: interpretação de contextos clínicos e sociais, sensibilidade para compreender a dor do paciente, capacidade de integrar informações técnicas com a história de vida do periciado. São camadas de análise que dependem da experiência, da ética e do raciocínio clínico do profissional.
A IA pode nos fornecer informações complementares, organizar dados, até sugerir correlações. Mas quem avalia se aqueles resultados são coerentes, se têm validade clínica e jurídica, somos nós. A responsabilidade final é sempre do médico.
O desafio da autonomia profissional
O limite ético está justamente na nossa autonomia profissional. Não podemos nos tornar meros operadores de sistemas. Precisamos entender os métodos utilizados pelas ferramentas de IA, questionar seus resultados e manter nossa capacidade crítica sempre ativa.
Além disso, há questões práticas importantes: ainda não existe uma Inteligência Artificial desenvolvida especificamente para o campo da perícia médica. As tecnologias disponíveis foram criadas para uso clínico, administrativo ou acadêmico, e estão sendo adaptadas de forma isolada para nosso contexto.
Também enfrentamos desafios relacionados à falta de uniformidade dos dados médicos e à necessidade de obter consentimento dos pacientes para uso de suas informações no treinamento de algoritmos. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados de saúde como sensíveis, e isso impõe obrigações rigorosas de privacidade e segurança.
Então, qual é o veredito?
A Inteligência Artificial é uma aliada valiosa, não uma substituta. Ela pode otimizar nosso trabalho, nos ajudar com tarefas repetitivas e aumentar a consistência dos nossos laudos. Mas o julgamento pericial continuará dependendo do que só nós, médicos, podemos oferecer: humanidade, ética e expertise clínica.
O futuro da perícia médica não é humano versus máquina. É humano com máquina, desde que saibamos estabelecer os limites corretos e usar a tecnologia dentro de parâmetros éticos e legais muito bem definidos.
E você, já utiliza alguma ferramenta de IA no seu trabalho pericial? Como tem sido sua experiência? A tecnologia veio para somar, mas nossa responsabilidade profissional permanece inegociável.
Caroline Daitx é médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, fundadora do CAEPE – Centro de Aperfeiçoamento e Especialização em Perícia Médica.